
Ler Te Dei Olhos e Olhaste as Trevas, de Irene Solà, não foi uma leitura comum — foi uma experiência incômoda, misturada com ansiedade, do início ao fim. Confesso que precisei voltar várias vezes às páginas anteriores e até fazer anotações sobre os personagens para não me perder na história. Ainda assim, tenho a sensação de que essa confusão faz parte da proposta da autora, como se o leitor também fosse lançado para dentro desse ambiente instável.
Logo no começo, uma cena me marcou muito: quando Margarida desejava morrer logo para ir para o céu. Ela era a única da família profundamente religiosa, a única que parecia se comunicar com o sagrado, enquanto as outras estavam mais próximas do profano. Em determinado momento, surge a frase: “te dei olhos e olhaste as trevas” — mas, em vez de alcançar o céu, ela acaba indo para o inferno. Essa inversão já dá o tom de tudo que vem depois. Nada ali acontece como a gente espera.
A partir daí, a leitura se torna ainda mais envolvente.
A atmosfera quase alienante do livro é construída por meio de vozes, fragmentos, memórias e sensações. É confuso — e intencionalmente confuso —, o que acaba prendendo o leitor do início ao fim.
Um sentimento que me acompanhou o tempo inteiro foi o incômodo. Principalmente na forma como o sexo é retratado: muito cru, direto, sem romantização. Em alguns momentos, isso pesa ainda mais por envolver gerações mais novas, tornando a leitura bastante desconfortável — quase impossível de ignorar.
Além disso, a religião permeia o livro de maneira intensa e sufocante. Um exemplo é Bernadeta, que se envolve com o demônio não por desejo, mas por solidão e necessidade de lidar com sua condição. Em alguns momentos, ele se transforma em diferentes animais para suprir essa presença, evidenciando que, naquele universo, o sobrenatural é parte da vida.
A própria história da família nasce de algo quase mítico: uma mulher que desejava um homem por completo e, ao fazer um pacto com o demônio, desencadeia tudo que vem depois. Mesmo quando esse pacto é desfeito, suas consequências continuam ecoando pelas gerações, muitas vezes de forma quase imperceptível.
O livro se constrói nessa atmosfera densa, entre o religioso e o demoníaco, onde vozes — humanas e não humanas — se misturam o tempo todo. É difícil separar o que é real do que não é.
No fim, Te Dei Olhos e Olhaste as Trevas não é um livro para ser completamente entendido, mas para ser sentido. E o que ele faz a gente sentir nem sempre é confortável.
Foi uma leitura que me deixou inquieta — e, mesmo depois de terminar, ainda parece que algo dela ficou em mim.
- Mitologia grega como símbolo de sexualidade e amor
- Estamos nos relacionando ou apenas consumindo pessoas?
- Resenha- A cachorra
- O que todo o temporal em Pelotas representa para a cidade?
- Quem vai contar as histórias dos idosos?
Mitologia grega como símbolo de sexualidade e amor
o que a mitologia grega pode nos ensinar sobre sexualidade? Nas últimas décadas, as mulheres possuem mais liberdade para conversar sobre sexo e entendê-lo. Então, há um aumento da repercussão do assunto sexualidade nas mesas das mulheres. De acordo com a pesquisa “Prazeres Universa + Tech4sex”, as mulheres da geração Z, de 18 a 24…
Estamos nos relacionando ou apenas consumindo pessoas?
Estamos transformando o amor em um produto? Quando comecei a ler 44 Cartas do Mundo Líquido Moderno, um pensamento começou a palpitar na minha cabeça: será que é possível não estarmos nos relacionando com as pessoas, e sim apenas as consumindo? Mundo Liquido Moderno: O sociólogo polonês utiliza situações cotidianas para refletir sobre as transformações…
Resenha- A cachorra
O livro A cachorra, escrito pela colombiana Pilar Quintana, expõe a violência de forma crua. Quando comprei o livro, imaginei uma história diferente daquela que encontrei. Na minha cabeça, depois de adotar sua cachorra, a personagem principal acabaria matando o marido por ele ser rude e não gostar de animais, enquanto ela demonstrava amar sua…

Deixe um comentário