
Minha avó tem 89 anos. Desde minha infância lembro que ela sempre foi meiga, tagarela e, extremamente amável.
Quando começou a morar na minha casa, algumas atitudes frequentes que da possuía mudaram drasticamente e dolorosamente, como, por exemplo, seu olhar.
Uma vez ele ja foi o olhar mais feliz e sensível que vi em toda a minha vida, agora parecem uma maré em dia de tempestade.
Minha vó, que era a alegria em pessoa, desde que seu filho e cuidador morreu, parece não encontrar tanto sentido em sua vivência.
Quando eu chegava em seu quarto e a via chorando me perguntava se seus olhos castanhos mel estavam ficando azuis, de tanta água que tinham.
Minha maior dor foi ver sua seu rosto inchado de tanto chorar e ainda cheios de lágrimas, enquanto se questionava, ao lado do caixão, sobre o porquê de seu filho tão amado ter morrido.
Assim, seus olhos, que eram secos como o deserto, se tornaram um mar com correntezas e ondas fontes.
O olhar da minha vó expõem toda a sua vivência.
A vida de uma mulher que se casou com 19 anos e passou fome para alimentar seus seis filhos, de quem sofreu 2 abortos espontâneos e viu seu filho morrer e não poder fazer nada.
Porém, para mim, vê-la e olhar a dimensão de seus olhos, sempre vai ser o momento mais felizes, do meu dia.
Lendo “Os esquecidos de Domingo”, de Valérie Perrin, pensei em tudo que a minha vó já viveu.
Toda a sua vida sempre foi resumida ao casamento e aos filhos, que, muitas vezes, agora nem dão atenção a ela.
“Sempre me dizem que quando morre um velho, queima-se uma biblioteca, então estou preservando algumas cinzas” – Os esquecidos de domingo
Assim, quantas histórias desaparecem quando uma pessoa morre porque ninguém teve a curiosidade de perguntar enquanto ela estava viva?
Muitas vezes, nós, netos e filhos, sabemos tão pouco de nossos avós e pais, mas conhecemos tanto outras pessoas que nem são da nossa família.
Todo mundo tem uma história para contar.
Então, porque não ouvimos o que nossos parentes tem para nos dizer?
Quando meu tio morreu eu não sabia nada de sua vida. Ainda não conheço muito, porém agora, com a ajuda da minha vó, sei o prato preferido dele, que ele era um ótimo jogador de futebol e que ele era, realmente, muito bonito na juventude.
Por mais que pareçam informações bobas, elas me ajudaram a relembrar quem meu tio era e, muitas vezes, distraem minha avó do seu sofrimento, já que foi ela que me contou tudo isso.
Assim, por mais que meu tio morasse no mesmo lugar que eu, não possuía nenhuma curiosidade para saber de sua vida, e, talvez, no fim dela, isso tenha me machucado.
Muitas vezes nos limitamos a ler r ouvir narrativas de desconhecidos, porém, quando se tem uma enciclopédia de histórias sob o mesmo teto que nós, ignoramos.
Nossos avós, que tantas vezes se doavam ao extremo para cuidar de nossos pais, envelhecem e começam a ser tratados como se já não tivessem a mesma importância.
São os esquecidos de domingo.
Todas as vezes que minha avó é ignorada por um de seus filhos, meu coração aperta. Sinto a tristeza de longe, que ela não expressa, o vazio que ela não expõem, mas eu percebo.
Pois é muito mais fácil amar uma pessoa nova que alguém que ja te machucou mais de uma vez.
Eu nunca poderia dizer que a vida da minha vó foi fácil e, por isso, ela não merece amor.
Pelo contrário.
São nos momentos de doença e morte que nos arrependemos de não ter amado e expressado mais.
São nessas horas que queremos voltar no tempo e dar a atenção que não demos.
Mas é ai que não tem mais volta.
A vida é cheia de escolhas, e muitas pessoas escolhem não dar atenção para seus pais e avós.
Eu escrevo esse texto sabendo e me culpando.
Pois em vários momentos não dei a atenção que minha vó merecia e o amor que ela exigia.
Talvez seja impossível estar presente o tempo inteiro.
Mas isso não significa que não possamos perguntar.
Como foi sua infância?
De quem você se apaixonou?
Do que você tinha medo?
Qual foi o dia mais feliz da sua vida?
Quem você era antes de ser minha avó?
Porque um dia eu não vou mais poder perguntar.
E todas aquelas histórias que hoje estão tão perto de mim podem desaparecer.
Talvez seja isso que mais me assuste em ‘Os Esquecidos de Domingo: perceber que não precisamos esperar a morte para esquecer alguém.
Às vezes, fazemos isso enquanto a pessoa ainda está sentada ao nosso lado.
Talvez, um dia nos seremos os próximos esquecidos de domingo.
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