
O livro A cachorra, escrito pela colombiana Pilar Quintana, expõe a violência de forma crua.
Quando comprei o livro, imaginei uma história diferente daquela que encontrei. Na minha cabeça, depois de adotar sua cachorra, a personagem principal acabaria matando o marido por ele ser rude e não gostar de animais, enquanto ela demonstrava amar sua nova filha.
“Se Rogelio lhe fizesse algo, se atrevesse a levantar um dedo que fosse, o mataria.”
Mas não. A história não seguiu o caminho que imaginei. Na verdade, mostrou-se muito pior do que eu esperava.
“Ela cabia em suas mãos, cheirava a leite e fazia com que sentisse uma vontade enorme de abraçá-la bem perto e chorar.”
Até quase a metade do livro, acompanhamos o amor que Damaris sente por sua nova cachorrinha, que ela leva para todos os lugares dentro do sutiã. Porém, aos poucos, esse afeto dá lugar à morte, à raiva e à violência.
Damaris foi criada pela mãe apenas até os quatro anos de idade. Desde cedo, a violência, a desigualdade, a inveja, o rancor e a morte fizeram parte de sua vida. Depois que a mãe partiu para trabalhar fora, ela ficou aos cuidados do tio e da tia, caseiros da propriedade dos pais de Nicolastino.
Damaris e Nicolastino tinham a mesma idade e haviam nascido no mesmo dia. Os dois eram amigos. Certo dia, junto de Luzmila, prima de Damaris, foram até um lugar baixo, cheio de rochas onde as ondas batiam com força. Depois de algum tempo, Nico se aproximou do rochedo para sentir os respingos da água e acabou caindo.
Foram necessários 33 dias para encontrarem o corpo do menino. Durante esse período, a cada dia em que não havia notícias, Damaris apanhava do tio. A violência aumentava progressivamente: no primeiro dia, uma chicotada; no segundo, duas; e assim por diante.
“Tio Eliécer ajudava nas buscas e, pelas tardes, quando chegava com as más notícias, sentava-se em um tronco que havia na entrada do casebre. Damaris sabia que aquele era um sinal para que ela se aproximasse. Ela fazia sem demora, pois não queria que ele se zangasse ainda mais. Então o tio pegava um galho de goiabeira duro e elástico e a açoitava.”
Apesar de ser um livro curto, A cachorra é uma leitura muito pesada. A violência não aparece apenas nos acontecimentos extremos, mas também nas relações cotidianas e na maneira como os personagens tratam aqueles que consideram mais frágeis.
Depois de dois anos tentando engravidar, Damaris começa a se afastar do marido, Rogelio, e os dois passam a dormir em camas separadas. Ele a xinga, a julga e compara seu corpo ao de um homem. Diz que suas mãos são grandes e gordas, como as de um homem, e que não existe louça capaz de suportá-las. Depois desses comentários, Damaris se deita e fica pensando no que ouviu.
Quando adota a cachorrinha Chirli, porém, demonstra um amor imenso. Mesmo quando o animal destrói três de seus sutiãs, Damaris apenas o abraça e diz que tudo ficará bem. Não a repreende, porque, naquele momento, o bem-estar da cachorra parece ser mais importante do que qualquer prejuízo material.
Entretanto, com o passar do tempo, a relação entre as duas começa a mudar. O amor que antes parecia incondicional dá lugar ao ódio e à raiva.
Na primeira vez que Chirli foge, fica desaparecida por 34 dias, um a mais do que o tempo gasto para encontrarem o corpo de Nicolastino. Durante esse período, Rogelio ajuda Damaris a procurá-la, e os dois chegam a ter uma noite de aproximação romântica.
Quando Chirli finalmente volta, Damaris acredita que ela não fugirá novamente, pois a cachorra parece estar muito apegada a ela.
Chirli está grávida.
Damaris não suporta a situação. Depois de sofrer tanto com suas próprias tentativas de engravidar, ela não consegue lidar com a visão das tetas cheias da cachorra. Quando os filhotes nascem, seu interesse pelo animal diminui ainda mais. Mais tarde, ao perceber que Chirli não cuida adequadamente dos filhotes, a cachorra acaba comendo um deles. Damaris assume essa responsabilidade.
Na segunda fuga, Damaris sequer demonstra interesse em procurar Chirli. A cachorra reaparece duas semanas depois, novamente grávida. Damaris percebe a situação quando Chirli destrói a cortina que pertencia a Nicolastino. Aquilo parece ser o limite de sua raiva.
A personagem pega uma corda, coloca-a no pescoço da cachorra e a enforca.
Viu o desespero da cadela e continuou a enforcando.
Penso em como alguém teria coragem de fazer isso com um animal tão indefeso? Como alguém teria coragem de machucar um cachorrinho que fez de tudo para estar com seu dono, que não tem noção e que apenas segue seus instintos?
Chirli estava no cio e, por isso, fugia. Quando engravidava, voltava para casa. Seu comportamento era natural, mas Damaris não conseguia mais enxergá-lo dessa forma. A cachorra passa a representar tudo aquilo que ela não consegue suportar em sua própria vida: a maternidade que lhe foi negada, a frustração, a inveja e a dor.
O ponto principal do livro acredito que seja exatamente isso, mostrar para os leitos o quão fácil é descontarmos nossas emoções nas pessoas ao nosso redor, especialmente naqueles mais vulneráveis.
Regelio quando ficava com raiva batia nos seus cachorros. Tio Eliécer decepcionado e triste por não achar o corpo do falecido açoitava Damares. Essa por inveja, frustração e dor mata a cadela. Como alguém consegue fazer isso com um ser tão indefeso? Como alguém consegue machucar um animal que busca estar perto de seu dono, que não compreende a dimensão dos próprios atos e que simplesmente segue seus instintos?
Isso não significa que a dor dos personagens justifique suas atitudes. Pelo contrário, a história mostra como o sofrimento pode se transformar em violência quando é direcionado contra quem não tem culpa por ele.
O que mais me perturbou durante a leitura foi perceber como a relação entre Damaris e Chirli, que começa com tanto amor, pode se transformar em algo tão cruel. A cachorra não tem culpa pela infertilidade de Damaris, assim como Damaris não deveria ter sido responsabilizada pela morte de Nicolastino. Ainda assim, ambas se tornam vítimas de uma cadeia de sofrimento e violência.
A cachorra é uma obra curta, mas difícil de esquecer. Pilar Quintana constrói uma história que incomoda porque nos obriga a olhar para a crueldade humana sem suavizá-la.
Então, concluindo, chorei do início ao fim.
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