
um conto durante a dinastia Qing, em 1781, no sul da China. Uma mulher quer salvar sua filha, independente de tudo.
Agosto chegou com chuvas. Naquela noite, minha filha nasceu, em um mês de temporais, péssimo para parir. No quarto escuro e úmido ouvi seu choro depois de ter saído de mim.
Meu marido, após três horas apareceu em casa, com sua capa de chuva, depois um longo dia de trabalho no campo, pegou sua primeira filha, sem saber que ela não era menino.
Aquele ano, 1781, vivíamos em uma pequena aldeia no sul da china.
Acreditei que o culto aos ancestrais, acontecia com os recém-nascidos, de qualquer sexo. Assim, como normalmente ocorriam, na nossa aldeia, depois de uma semana do nascimento tentei esconder minha filha o máximo possível.
A parteira que aconselhou a não permitir que ele tocasse nas partes íntimas da bebê. Não entendia ao certo o que ele poderia fazer, mas a obedeci.
Não tintamos condições para manter uma criança, não sendo o primogênito, para manter a continuidade do nome da família. Porém mantive um certo otimismo, acreditava na bondade do meu marido. Achei que ela o conquistaria.
Por 3 dias consegui entretê-lo, transando.
No quarto dia, depois de não conseguir mais sair da cama, ele pegou o bebê no colo, despiu-o e viu a vagina.
Quis matá-la.
Chorei, implorando que a deixasse.
Ele não me deu ouvidos. Disse que, de manhã, a mataria.
Não dormi naquela noite. Passei horas imaginando o caminho até a outra aldeia, contando mentalmente os quilômetros que minhas pernas teriam de suportar.
Naquela casa pequena, sem móveis, somente o berço do bebe, que se movia com o vento do campo, fazendo um alto rugido, sai das palhas sobre as quais dormíamos. Quando toquei meus pés no chão frio, senti um medo que atravessou toda a minha medula.
Naquela fatídica noite, lembro-me, como se fosse hoje, todas as minhas emoções.
O campo úmido e sem luz, me fez tropeçar várias vezes com a bebê no colo. Depois de um tempo o choro veio. Um choro forte.
Dei minha teta, ela não quis, nada a acalmava.
Puxou meu cabelo e soltei um pequeno gritinho, senti que alguém ouviu. Que alguém nos observávamos.
Talvez minha inocência tenha me feito acreditar que alguém me ajudaria.
Pobre Anne, coitada de mim.
Eu poderia ter pensado antes.
Antes de engravidar, antes de não ter sido religiosa o suficiente com os costumes dos nossos ancestrais para ser ouvida, antes de casar com aquele mostro e antes de apoiar essa ideologia.
Enquanto corria, ainda depois do choro, ouvi o tiro.
Depois disso, não me lembro de ter sentido mais nada.
A criança…
Espero que esteja bem. Hoje faria dez anos.
Já eu…
conto isso do caixão.
Frio, úmido e sem espaço para me mexer.
- O que fica depois da morte?
- Por que todo dia a mesma noite?
- “É preciso muita coragem para ser mulher”
- Sinto falta do que não vivi
- Em uma casa escura

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