O que fica depois da morte?


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Quando eu estava no enterro do meu tio, uma amiga da minha mãe me disse algo que até hoje me impacta:

— A gente se apega às pessoas na Terra e, depois, quando elas morrem, não sabemos como viver sem elas. Essa que é a pior parte: aprender a viver sem alguém.

Naquele momento, só chorei.

Depois de uns dias, vi meu pai lacrimejando em silêncio. Não sabia o que dizer para tranquilizá-lo, e então essa frase veio à minha cabeça. Não comentei com ele, pois achei que seria insensível com seus sentimentos, porém sabia que ele estava sofrendo porque não tinha noção de como seria sua nova vida.

Uma vida sem seu amado irmão.

Lendo Todo Dia a Mesma Noite, de Daniela Arbex, essas cenas vieram à minha mente com força.

Quando perdemos alguém, não perdemos só a pessoa.

Perdemos a ideia de vida com ela.

Arbex comenta sobre José Carlos, que perdeu sua neta na tragédia:

“Perdê-la foi como arrancar as raízes de um sonho que surgira a partir de um amor profundo, pois a neta era filha duas vezes, era a esperança de uma vida melhor. Ele ficou sem chão.”

A morte, para muitos brasileiros, não é apenas a perda de uma pessoa querida. Ela remete a uma despedida dolorosa, à ideia de um grande vazio deixado por quem faleceu.

Usar preto em um velório, por exemplo, costuma ser associado ao luto, ao silêncio, à introspecção e à tristeza. Em outras culturas, diferentes cores podem assumir significados relacionados à morte, à despedida e à espiritualidade.

Talvez seja também por isso que a morte seja um assunto tão doloroso e cercado de tabus. Muito do que associamos a ela remete à tristeza, e não à felicidade por termos vivido um período ao lado daquela pessoa.

A ideia de solidão no livro de Daniela é expressa principalmente nos últimos capítulos, quando ela começa a contar a vida dos pais depois do ocorrido.

“Retomar uma história brutalmente interrompida sem os personagens principais exige uma reinvenção de si mesmo.” (p. 187)

Relembrar a vida da pessoa que morreu diminui um pouco a solidão.

Lembrar o sorriso. A risada. A voz. O choro. A cara.

Tudo isso ajuda a não apagar a pessoa da memória.

Mas e quando já se passou muito tempo e, mesmo se lembrando dela todos os dias, você esqueceu o exato som da voz e da risada?

O Avesso da Pele, escrito por Jeferson Tenório, também parte de uma perda. Pedro perdeu o pai, Henrique, de maneira violenta e, ao longo do livro, tenta se aproximar dele reconstruindo sua história.

Ao juntar as coisas que ficaram para trás, Pedro começa a reconstruir quem foi seu pai, sua relação com sua mãe e as histórias que talvez nunca tenha conhecido por completo.

“Os mesmos utensílios que te derrotaram e que agora me contam sobre você. Os objetos serão o teu fantasma a me visitar.” (p. 14)

Assim, ele tenta recriar o pai a partir de histórias, lembranças e fragmentos.

E ele consegue.

Pedro faz algo parecido com o que muitas famílias das vítimas da tragédia da Boate Kiss fizeram.

Elas queriam ser ouvidas. Queriam que as histórias de seus filhos, amigos e amores continuassem sendo lembradas. E Pedro também queria que seu pai fosse lembrado.

Talvez contar histórias seja uma maneira de lutar contra o esquecimento.

As pessoas, muitas vezes, têm medo da morte. Porém, enquanto aqueles que amam ainda estão vivos, podem adiar visitas, conversas, abraços e demonstrações de carinho. Depois, quando alguém morre, pode surgir o arrependimento de não ter amado mais, de não ter visto mais aquela pessoa ou de não ter estado ao lado dela.

Talvez porque a gente realmente acredite que ainda existe tempo.

Claro que, quando alguém se vai, o medo da solidão se instala e se expande.

E, muitas vezes, ir embora nem é sobre morte.

Pode ser escolher partir de um relacionamento amoroso ou de uma amizade.

A escolha, depois de feita, pesa.

O arrependimento vem.

A ausência de uma pessoa não se torna fácil, ainda mais quando ela morreu de forma tão drástica. Para amenizar a dor, quem sofre pode continuar vivendo, de alguma maneira, uma história que já acabou.

Assim, para quem fica, a reinvenção de uma vida sem a pessoa amada é difícil, complicada e demorada.

A saudade aumenta a cada dia.

E também a solidão.

O medo de ver o quarto sem a pessoa.

E a esperança de vê-la ali.

A esperança de que dias melhores vão chegar, mesmo que não cheguem tão rapidamente.

O desejo de ter aquela pessoa ali novamente, para amar mais, festejar mais e estar mais presente.

A ausência e o vazio tomam conta.

Talvez porque, quando amamos alguém, não imaginamos aquela pessoa apenas no presente. Sem perceber, colocamos ela no nosso futuro.

No próximo aniversário.

No próximo Natal.

Na próxima viagem.

No próximo domingo.

A vida sem alguém se torna estranha porque imaginávamos que ela sempre estaria ali.

Nós nos apegamos à ideia de “para sempre”.

Talvez a amiga da minha mãe estivesse certa.

A pior parte não é apenas perder alguém.

É aprender a viver sem ele.


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