Resenha do livro Todo dia a mesma noite a história não contada da Boate Kiss, de Daniela Arbex.
“Depois da Kiss, ninguém seria mais o mesmo. Ninguém.”
Todo Dia a Mesma Noite, de Daniela Arbex, é um livro de imensa tristeza, feito para contar a história da Boate Kiss.
A autora, jornalista com mais de 20 prêmios nacionais e internacionais por suas investigações, conheceu o caso e foi incentivada pelo radialista Marcos Moreno, que a fez acreditar que precisava contar essa história.
Essa reportagem possui, para mim, quatro camadas de sentimentos.
A primeira delas é a solidão dos pais. Com a morte de seus filhos, suas vidas nunca mais seriam as mesmas. Acredito que é justamente isso que a autora quis mostrar ao escrever essa história.
A segunda é o sofrimento daqueles que sobreviveram à tragédia: a necessidade frequente de acolhimento psicológico, os traumas relacionados ao que presenciaram dentro da boate e as consequências físicas que alguns carregaram.
Créditos: Deborah Lahm e Thelmo Fernandes em ‘Todo dia a mesma noite’ — Foto: Netflix
A terceira é a tristeza do dia do enterro dos jovens. A cidade inteira parou, e muitas pessoas estavam no ginásio, um dos locais onde ocorreu o velório, para acompanhar aquele momento de extrema fragilidade emocional.
A última é a própria Daniela. Antes de começar a apuração, ela não sabia exatamente o que todas aquelas vítimas, direta ou indiretamente atingidas pela Kiss, estavam sofrendo. Quando começou a conhecer essas histórias, a dimensão da tragédia também se tornou chocante para a jornalista.
Quando comecei a ler o livro, algo muito estranho aconteceu comigo.
Consegui, involuntariamente, separar os acontecimentos do livro da realidade. Era como se toda aquela história não passasse de um conto de ficção e como se aquelas 242 mortes não fossem verdade.
Isso se prolongou até a última página.
Foi somente quando li sobre Ligiane acendendo a luz do quarto de Adrielle, como fazia desde aquele dia, deixando iluminado durante a madrugada o cômodo onde a filha havia dormido durante 22 anos, que essa separação desapareceu.
E então vem a pergunta sobre quantos quartos de Santa Maria ainda estariam com suas luzes acesas.
Foi aí que a ficha caiu.
Foi então que desaguei.
Pensei em todas as vítimas, e uma parte de mim parecia estar lá também.
Arbex, ao contar a história dos indivíduos envolvidos na tragédia, não os trata simplesmente como “as 242 pessoas que morreram”. Ela procura mostrar que eram jovens com famílias, amigos, planos, estudos, trabalhos e sonhos.
Aquela noite era, para muitos, apenas uma noite comum de diversão. Jovens universitários saíram para encontrar amigos, comemorar aniversários e aproveitar o fim de semana.
Isso se expressa na história de Adrielle, uma das vítimas daquela noite. Ela havia falado para o pai e para a mãe que ainda tinha muito tempo para fazer uma faculdade e dar orgulho a eles.
É justamente esse “muito tempo” que dói.
Porque não teve.
Outro momento que me marcou foi o trabalho de Liliane, capitã da Brigada e enfermeira, responsável por cuidar dos corpos, limpá-los e acomodá-los para o reconhecimento.
“Eu preciso devolvê-los às suas mães.” repetia a capitã no momento que entrou na boate.
A responsável por tomar conta dos corpos, os limpa-los e acomoda-los, para o reconhecimento, foi uma das que não teve escolha para chorar. “ Não temos o direito de fraquejar. O pior ja aconteceu.”
Para a capitã foi muito doloroso todo o momento, ela nunca esqueceu do dia, que não terminaria quando aquela madrugada acabou, e sofre ate hoje, como todas as famílias das vitimas.
Em outro momento, uma funcionária do HUSM que trabalhou como voluntária naquela noite, diz:
“ Não perdi ninguém próximo, mas sinto que perdi alguma coisa.”
Acho que essa ideia mostra exatamente o que senti ao terminar o livro.
Claro que nunca compararia meus sentimentos aos daqueles que vivenciaram a tragédia, perderam alguém ou sobreviveram a ela. Porém, no final da leitura, senti um aperto muito grande no peito.
A morte é um assunto delicado para todo mundo. E acredito que seja ainda mais para aqueles que descobriram que seus filhos, familiares, amigos ou amores morreram em uma noite que deveria ter sido apenas uma festa.
O livro pesa do início ao fim.
Pesa quando detalha a vida de uma vítima.
Pesa quando relata a tragédia.
E pesa quando mostra a saúde mental daqueles que trabalharam ou se voluntariaram naquele dia.
Uma das maiores lições que aprendi com esse livro é que, em um dia, você pode estar feliz, se divertindo e brincando com as pessoas especiais ao seu lado e, no outro, tudo pode mudar.
Por isso, não deixe de falar que ama alguém.
Silvinho, uma das vítimas, fez isso antes de sair de casa ao escrever no espelho do banheiro:
“Amo vocês.”
Para as famílias que tiveram a vida de seus entes queridos tirada pelo incêndio, Todo Dia a Mesma Noite mostra que a vida depois de uma morte tão drástica nunca volta a ser exatamente como era.
Elas não esqueceram aquele dia.
E talvez seja por isso que o título do livro seja tão doloroso.
Para quem ficou, 27 de janeiro de 2013 continua se repetindo.
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