
Minha mãe me teve por uma coisa que ela chama de abuso, não sei o que isso significa.
Tenho 5 anos e nunca toquei no sol. Minha mãe fala que não dá para encostar, nem chegar perto dele, pois, de acordo com ela, pode morrer. Eu não acredito nisso.
Uma vez, quando descobri uma janela muito pequena na nossa casa, quase consegui tocar no sol, porém mamãe viu e me puxou com força para não chegar mais perto da fresta de ar.
Minha mãe nunca deixou eu chamar esse lugar de lar, pois lar é quando uma casa se enche e transborda de amor para todo mundo. Isso aqui onde vivemos não acontece.
Nossa casa é fria, úmida, toda cinza e muito pequena, o teto quase toca na cabeça de papai, isso é estranho. Tem apenas três cômodos, que são marrom-escuros, quase da cor do meu cabelo, que é muito grande.
Eu tenho dois livros. Um deles é Robin Hood, que, lendo, descobri que a gente é pobre. O outro é Peter Pan, e nele encontrei uma palavra muito curiosa: liberdade. Mamãe também não deixa eu falar isso. Ela diz que pode machucar o meu pai. Quando pergunto o porquê, ela manda eu calar a boca.
Às vezes, ouço minha mãe chorando no quarto dela. As paredes são muito finas, é normal eu escutar tudo.
Minha mãe diz que não posso ser tão curioso com tudo que acontece na casa, mas é difícil não ser enxerido, principalmente de noite.
Todos os dias, meu pai traz comida para a gente comer, como uma família, certa vez falou.
Não entendo por que ele pode sair de casa e eu não.
Tem dias que a mãe me tranca no banheiro. Apenas diz para eu não fazer barulho e me esconder dentro do armário. Nesses dias, escuto ela chorando e meu pai gritando com ela. Às vezes, acho que ela sente quando isso vai acontecer, como se fosse vidente.
Ela já me contou uma história com bruxas e médiuns.
Depois de muito tempo, ela me busca no banheiro. Vejo o pai colocando seu cinto e mamãe segurando as lágrimas. Parece que ela não é feliz vivendo comigo.
Todos os dias, eu tento alegrá-la o máximo que posso. De vez em quando, até crio histórias para contar a ela, como ela faz comigo. Crio histórias que deixam ela muito chocada.
Ela diz que um dia vou ser escritor.
Certa vez, relendo Peter Pan, perguntei para o pai por que não tenho uma escola. Por algum motivo, ele ficou muito bravo. Bateu em mim mais forte que o normal e colou uma fita na minha boca. Disse que eu tinha que ficar com ela por uma semana, para parar de ser burro.
Não entendi o que um animal tinha a ver com isso.
Quando ele foi embora, mamãe tirou a faixa e eu chorei no colo dela até dormir. Ela ficou agarrada em mim. Senti que chorava junto comigo.
Depois disso, meu pai me proibiu de ler e queimou na minha frente meus livrinhos. Minha mãe, outra vez, chorava comigo e me dava colo.
Ela diz que quer fugir dali. Diz que existe um mundo longe desse porão. Foi a primeira vez que ouvi essa palavra. Acho que ela se enganou. Diz que sou muito novo para sofrer com isso e que vou ser feliz.
Depois dessas palavras, eu chorei. Então, mamãe falou que vai me tirar dali, nem que ela morra.
Perguntei se ela não era feliz, de verdade, comigo.
Ela respondeu que não tinha como ser feliz naquele lugar.
No outro dia, fiquei na cama o tempo todo, até quando papai chegou e disse que era para eu ir jantar. Não quis. Ele me bateu de novo, dessa vez não tão forte como da última, ou eu que já não sentia a dor de apanhar.
No meu aniversário de 6 anos, mamãe me deixou tocar no sol.
Dessa vez, a janela estava maior. Eu conseguiria passar por ela se quisesse.
E passei. Ainda fiquei com medo de papai ficar bravo comigo e me bater.
Mãe logo atrás mandava eu correr mais rápido.
Quando ela parou, um homem chegou mais perto dela, nunca tinha visto ele. Queria saber coisas que eu não entendia o significado, porém ela respondia com uma rapidez quase treinada.
Agora, longe do porão frio, doentio, cinza e triste, escrevo no meu diário.
- O que fica depois da morte?
- Por que todo dia a mesma noite?
- “É preciso muita coragem para ser mulher”
- Sinto falta do que não vivi
- Em uma casa escura

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