Sinto falta do que não vivi



Eu estava correndo pelo campo, sentindo a brisa do verão percorrer todo o meu corpo, aquele aroma de grama recém-cortada e de flores sem pólen.

Depois de um tempo, resolvi entrar em casa.

Queria meu pai.

Minha mãe estava em um velório. Era o primeiro final de semana sem ela, e um estranhamento percorreu o dia inteiro. O enterro era de uma tia sua, talvez próxima.

Enquanto corria pela casa grande do sítio procurando meu pai, sentia o calor e o cheiro de casa limpa, misturado com um pouquinho do cloro da piscina. Da sala, dava para ver todo o lado de fora. As janelas grandes estavam quentes por causa do sol. Fazia muito calor.

Provavelmente, eu deveria ter menos de 9 anos. Não possuo uma memória muito boa da minha infância, mas recordo que meu maior medo, naquela época, era de alguém perto de mim fumar um cigarro.

Minha mãe sempre foi muito rígida, e alguns dos medos que carregava vinham disso.

Então, quando encontrei meu pai, pensei que ele estava fumando, porque, assim que cheguei perto, ele se assustou e se mexeu rapidamente.

Mas não estava.

Sinto falta de momentos que não vivi na minha infância.

Até os 15 anos, nunca fui muito próxima do meu pai, muitas vezes me afastava de propósito dele. 

Minha mãe sempre foi um grude comigo. Então, até ali, não sentia saudade do meu pai. Ele trabalhava e eu ia para a escola, dois mundos completamente diferentes. 

E, quando o vi naquele estado, quem também levou um susto fui eu.

Meu pai, alguém que sempre tinha sido sério, de poucas palavras e briguento comigo, estava chorando. Estava sendo vulnerável. Estava sentindo.

Algo que, para mim, criança, era impossível meu pai fazer.

Porém, ali estava ele, sendo sensível e chorando muito.

Eu não quis atrapalhar aquele momento. Só olhei, meio de perto, meio de longe. Vi alguém que, até então, nunca tinha chorado ou expressado algo tão íntimo perto de mim.

Quando saí correndo para fugir do caos das emoções dele, meu pai ouviu o barulho e me chamou:

— Isadoraaa! Isa!

Continuei correndo.

Ignorei.

Foi assim que descobri que meu pai também era um ser humano.

E que chorava tanto quanto eu.



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