O que é mais humano que a sociedade? 



Em um momento em que empresas de inteligência artificial têm comprado livros antigos, muitos de edições únicas, para digitalizá-los, chegando em alguns casos a desmontar exemplares físicos para escaneamento, o que seria mais humano que a sociedade?

Sendo assim, o que é o social? 

De acordo com Georg Simmel, o social inclui, não somente as relações duradouras como as pequenas interações do cotidiano, pois apaga-las seria como, na idade media, os médicos ignoravam os tecidos dos mortos e se interessavam apenas por órgãos grandes, sendo que as pequenas células que faziam tudo mexer.

Então, se, para Simmel, a sociedade não existe apenas nas grandes instituições, mas também nas pequenas interações do cotidiano, como as trocas de olhares, os ciúmes, as mensagens, os almoços juntos, a aparência simpática ou antipática e muitos outros são praticados de pessoa a pessoa, talvez seja justamente nelas que permaneça aquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir completamente. 

Assim, se o social é construído por essas pequenas relações humanas, vale perguntar o que acontece quando parte cada vez maior da nossa produção de conhecimento passa a ser mediada por máquinas. A inteligência artificial não altera apenas a forma como escrevemos ou pesquisamos, mas também como preservamos a memória coletiva.

Nesse aspecto, a inteligência artificial já começa a transformar profundamente nossa relação com os livros. Assim, apesar dos avanços tecnológicos, as experiências vividas nas relações humanas continuam sendo algo que nenhuma inteligência artificial consegue substituir plenamente.

Desse modo, talvez o conhecimento e a nossa vida não seja tão humana, visto que há 4 dias atrás saiu oficialmente em vários meios de notícia sobre o que está acontecendo no mundo afora com as inteligências artificiais e como elas estão interferindo cotidianamente nossas vidas. Expondo assim, que essa transformação também alcança a forma como produzimos e consumimos conhecimento. 

Nesse contexto, muitas empresas de inteligência artificial estão destruindo o que serviria de conhecimento ou que ja serviu de saber para muitas pessoas, pelo motivo mais óbvio de todos, que não é a preservação dessas obras para a outras gerações, mas sim a necessidade de obter textos considerados mais confiáveis para treinar os grandes modelos de linguagem. https://fastcompanybrasil.com/ia/empresas-ia-compram-destroem-livros-antigos/  E assim, para captar os dados dos livros, precisa-se destruir-los fisicamente. 

Nesse sentido, o que um dia ja foi apenas uma distopia expressada em muitos livros como Fahrenheit 451, escrito pelo Ray Bradbury em 1953, sendo o exemplo mais famoso sobre o assunto. Em que nessa sociedade, os bombeiros não apagam incêndios, e sim eles queimam livros. O governo acredita que eliminar livros evita conflitos, fazendo as pessoas pensarem menos e as mantendo felizes e conformadas. Tendo o tema principal justamente a censura, anti-intelectualismo e manipulação da sociedade. Já outro livro muito contextualizado é 1984, do George Orwell, mas aqui os livros não são o foco principal, porém o Estado reescreve a história constantemente, destruindo documentos e substituindo por novas versões para controlar a memória coletiva. Assim, esses dois livros se conectam com a realidade, uma vez que há um grande perda de exalares físicos e únicos, reacendendo discussões que antes pareciam restritas às obras de ficção. Mostrando assim, o controle social e informacional, para manipular a memória coletiva. 

Hoje o que está acontecendo na realidade demonstra o que expos antigamente. Sendo assim, expressão a preocupação com a destruição do conhecimento não é nova, uma vez, quando destruiram a livraria de Alexandria e quando o primeiro imperador chinês, Qin Shi Huang, em 213 a.C, ordenou a destruição de diversos livros de filosofia e história para unificar o pensamento sob sua autoridade, mantendo preservadas apenas obras consideradas úteis ao governo, como agricultura e medicina. Mostrando que o controle sobre o conhecimento sempre esteve ligado ao exercício do poder. 

Embora os contextos sejam distintos, todos esses episódios levantam uma mesma questão: quem controla a preservação do conhecimento também influencia a forma como ele será transmitido às próximas gerações.

Desse modo, a única coisa que o ser humano ainda possui, que é só dele, é as interações sociais do cotidiano, seja um sorrido a um desconhecido, ou seja, um desculpa quando se esbarra em uma pessoa. 

Dessa forma, talvez para sair um pouco do ambiente digital com tanta inteligência artificial no mundo, o melhor seja andar na rua e ter essas pequenas relações com os outros. Sendo assim, quando transformamos livros em combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. E talvez seja justamente nas conversas, nos encontros e nas pequenas relações do cotidiano que continuemos preservando aquilo que ainda não pode ser digitalizado: a experiência humana.



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