364 dias



Sobre este texto

Este texto nasceu como um exercício de escrita para um curso. É uma cena de ficção que mistura terror psicológico, violência e culpa.

A história surgiu a partir da análise da pintura  Interior, de Vilhelm Hammershøi. A mulher retratada de costas, sozinha em um ambiente silencioso e aparentemente comum, despertou em mim a curiosidade sobre o que poderia estar acontecendo naquele momento que a pintura não revela. A partir dessa ausência de respostas, imaginei uma personagem que vive uma situação de medo e violência, transformando o silêncio e a solidão presentes na obra em uma narrativa de terror psicológico.

Não sei ainda se pretendo continuar essa história, mas gostei da ideia de deixá-la registrada aqui, justamente porque escrever também é experimentar histórias que talvez nunca tenham sido contadas antes.


Enquanto eu estava de costas, sentia a presença dele. Uma presença maligna, algo que sugava aos poucos todas as minhas forças. E então você foi chegando mais perto. Não tinha como fugir. Ninguém estava em casa para me socorrer, assim, abriu a boca e sussurrou no meu ouvido. Meu corpo se eriçou:

-“Eu te quero agora. Não tem como fugir. Você está presa a mim.”

Sem que eu respondesse, você continuou:

-“Você me pertence. Seu marido e seu filho não sabem do que você fez para me ter, correto? Você chora pelos cantos, mas não podes contar a ninguém que me conheces. Que fez o que fez para engravidar. Você finge que tem uma família perfeita por 364 dias no ano, mas, no dia que é minha, querer se matar. Você tem uma memória tão fraca. Esqueceste que sou onipresente, que posso ser a sua cabra do quintal, a vaca que mataste na semana passada e até a puta da sua amiga. Tire sua roupa agora sua vadia!”.

Eu queria gritar e espernear, porém ninguém iria me ouvir.  

Meu marido acredita que estou ficando louca. Ele não sabe de nada.

Minhas pernas estavam tremendo. Não suportava mais.

Não tirei minha roupa, fiquei paralisada, assim, pensei, talvez ele me ignorasse, fosse para outra, quisesse outra, talvez, até fosse embora. Mas não. Parecia até que ele lia meus pensamentos, ele forçou meu ombro e fez com que eu me agachasse. Puxou meu cabelo para trás. Senti uma dor latente, que atravessou a minha cabeça, ele tinha umas unhas enormes e escuras, quando sua mão peluda me tocou, quis vomitar, e então, como uma vez no ano, durante cinco anos, ele me estuprou.

Nessa vez eu só aceitei, tudo pelo meu menino, pensei, que já está tão crescido. Preciso aguentar, devo suportar essa dor novamente.  

Seu corpo roçando em mim me fez chorar silenciosamente.  Não pedi ajuda. Não gritei. Apenas esperei.

Dessa vez, eu aguentei, apenas vi minhas roupas rasgadas no chão e fechei os olhos, pensando em todos os momentos que tive ao lado do meu filho e do meu marido, pensei nos dias que éramos uma família.

Depois de uma hora ele parou, fiquei estática na cama e adormeci pelada.  

E assim, foi meu último dia de vida. Sem ninguém ao meu lado.

Sozinha e sonhando com o meu filho morto.

Pintura de Vilherm Hammershoi.

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