Psicóloga e psicanalista Michelle Vasconcellos fala sobre machismo, sofrimento, identidade e os desafios de mulheres que chegam a espaços que, durante gerações, não foram ensinadas a ocupar.
Conheci Michelle Vasconcellos em um evento realizado por ela. Durante sua palestra, perguntou:
— Quem aí acha que as mulheres estão no ambiente de trabalho, porém não se sentem pertencentes?
A pergunta despertou uma enorme curiosidade em mim. Fui a única a responder:
— Euuu!
Em alto e bom som.
Um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente por alguns segundos. Nesse meio-tempo, tive um ataque de riso, e também fui a única a rir do ocorrido.
Depois da palestra, combinamos de nos encontrar em seu consultório para conversar um pouco sobre sua trajetória, seu trabalho e, principalmente, sobre mulheres. Ela ficou muito feliz com o convite. Eu, mais ainda.
Michelle Vasconcellos é psicóloga e psicanalista, com uma trajetória acadêmica dedicada aos estudos sobre mulheres. Ao longo de suas pesquisas e de sua atuação profissional, percebeu que as experiências sociais femininas possuem particularidades muito diferentes das masculinas.
Em seu trabalho, passou a atender mulheres que, muitas vezes, eram as primeiras de suas famílias a frequentar uma universidade. Com elas, apareciam queixas recorrentes relacionadas à insegurança e a padrões de submissão.
As perguntas se repetiam: “Eu cheguei até aqui, e agora? Terminei a faculdade, e agora? Disseram para eu ter um emprego. Consegui um. E agora?”
Segundo Michelle, algumas dessas mulheres conquistavam posições de liderança, mas, ao chegar a esses lugares, não sabiam como se reconhecer neles. Muitas não tinham, dentro da própria família, exemplos de mulheres que haviam percorrido o mesmo caminho.
Ela exemplifica essa questão com uma lembrança da própria infância. Depois da aula, as crianças iam para a rua jogar bola. Os meninos eram responsáveis por montar os times; as meninas, geralmente, eram as últimas escolhidas.
Uma brincadeira aparentemente simples pode carregar algo maior: desde muito cedo, meninos e meninas podem aprender posições diferentes dentro de um grupo. Para Michelle, experiências como essa podem contribuir, mais tarde, para inseguranças relacionadas à liderança e ao pertencimento.
O machismo aparece nos discursos
Na sua experiência como psicóloga, de que maneira o machismo aparece dentro do consultório, mesmo quando as pacientes não o identificam dessa forma?
Michelle começa explicando que os fenômenos sociais que hoje nomeamos como machismo já existiam antes de possuirmos os conceitos e o vocabulário contemporâneo para identificá-los.
Para explicar por que determinadas estruturas permanecem, ela diferencia transformações econômicas, políticas, sociais e culturais. Enquanto algumas mudanças podem acontecer rapidamente, mudanças culturais e de mentalidade são muito mais lentas — e podem atravessar gerações.
“Fomos educados pelos nossos pais, que estavam dentro de uma estrutura, e pelos pais deles, que foram educados dentro dessa mesma estrutura. O que era proposto naquele momento, como os lugares muito definidos para o que era a mulher ou o homem, muitas vezes continua se perpetuando até hoje.”
E continua:
“Comentários sobre o que a mulher podia ser ou não podia ser, a maneira como ela devia se comportar ou não devia… isso aparece muito na clínica, nos discursos.”
Essas estruturas, porém, não produzem sofrimento exclusivamente nas mulheres. Michelle chama atenção também para homens educados sob a ideia de que precisam necessariamente ocupar o papel de provedores.
“Eles não entendem que isso vem dessa estrutura. ‘Como assim eu me sinto inferior? Eu sinto que não dou conta da minha família? Eu me sinto um fracassado porque a minha mulher precisa trabalhar e ganha mais do que eu?’ São sofrimentos variados. Se pensamos no machismo como estrutural, ele atinge mulheres e atinge homens.”
Isso não significa que homens e mulheres sejam atingidos da mesma maneira ou ocupem a mesma posição dentro dessa estrutura. Mas mostra como expectativas rígidas de gênero podem produzir diferentes formas de sofrimento.
Quando aquilo que parece individual também é social.
Existem sofrimentos que costumamos tratar como individuais, mas que, na verdade, possuem uma origem social ligada ao gênero?
A psicanalista responde partindo de uma ideia fundamental: somos indivíduos sociais. Nossas primeiras experiências emocionais surgem ainda na infância, e o ambiente interfere na maneira como construímos nossa personalidade, nossos sentimentos e nossas formas de agir.
A subjetividade, portanto, não é construída isoladamente.
“Muito do que nós somos — ou eu poderia dizer que a maior parte do que somos — foi formado nessa constituição com o ambiente, com o outro, e continua sendo. Por isso nossa identidade muda. Nós mudamos com o passar do tempo, e não é só sobre envelhecer. São as relações, os ambientes, as profissões, a família. Tudo isso muda com o tempo, e nós também vamos mudando.”
A resposta coloca uma questão importante: talvez algumas inseguranças que enxergamos exclusivamente como defeitos individuais também precisem ser analisadas a partir dos ambientes em que aprendemos a existir.
É possível abandonar aquilo que aprendemos?
Perguntei então se uma pessoa criada dentro de uma família extremamente machista, patriarcal e conservadora consegue abandonar completamente essas concepções: a ideia de que o homem precisa ser provedor, ganhar mais do que a mulher, casar-se, ter filhos e demonstrar constantemente sua virilidade.
Para Michelle, a transformação é possível quando existe abertura para questionar essas certezas. Mas abandonar completamente aquilo que estruturou nossa identidade pode ser muito mais difícil.
Certos comportamentos funcionam, inclusive, como formas de pertencimento e proteção. Questioná-los pode significar questionar também quem acreditamos ser.
“Se eu me abdicasse dessa certeza, desse discurso, o que eu perderia? O que eu sentiria? Eu sentiria medo? Eu não me reconheceria sem ter esse contexto todo viril, esse contexto todo feminino?”
Ela continua:
“Às vezes eu perco um lugar no mundo, um lugar familiar, um lugar numa instituição, e a gente tem que olhar para tudo que está em jogo. E sim, penso que é possível. Nós, seres humanos, somos fantásticos, desde que estejamos dispostos a fazer esse conjunto de reflexões e pensar em nós mesmos.”
E deixa uma pergunta:
“Quem seria eu se abrisse mão dessa certeza? Se eu não precisasse performar esse modelo, seja de virilidade ou de feminilidade?”
“Coragem”
Depois de todos esses anos ouvindo mulheres, o que elas lhe ensinaram sobre ser mulher?
Michelle chorou.
Por alguns instantes, aquela deixou de parecer apenas mais uma pergunta da entrevista.
Sua própria trajetória atravessa sua resposta. Michelle conta ter crescido em um ambiente profundamente machista e ter convivido com mulheres cuja existência era marcada pelo trabalho, pela exploração e por papéis sociais muito rígidos. Mesmo assim, eram mulheres que resistiam.
Quando perguntei o que todas elas lhe ensinaram, Michelle resumiu:
“Olha, eu poderia resumir numa palavra que me emociona: coragem. É preciso muita coragem para ser mulher.”
Ela continuou:
“Eu tive familiares, mulheres, pessoas muito amadas, que eram criadas para ser exploradas. Exploradas no trabalho, no trabalho doméstico, no trabalho doméstico para o outro. E, mesmo assim, essas mulheres resistiam.”
E eram justamente algumas dessas mulheres que mostravam às mais novas que outro caminho poderia existir.
“Conseguiam dizer a outras mulheres que a vida não era aquilo, que a vida não precisava ser aquilo. E eu vejo mulheres todos os dias na minha clínica e no mundo fazendo diferente.”
Então, novamente, Michelle chegou à mesma palavra:
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