
“Ninguém nasce racista ou machista; aprende-se a ser. Portanto, também pode ser desaprendido.” — Nelson Mandela.
E, assim, quero começar minha resenha sobre o livro O Sol é para Todos, escrito por Harper Lee, lançado pela primeira vez em 1960 e vencedor do Prêmio Pulitzer um ano após seu lançamento.
A autora constrói a narrativa pela perspectiva de uma criança de 7 anos, o que torna o preconceito ainda mais evidente, mostrando seus sentimentos perante a entrada do irmão na adolescência, além de desenvolver sua indignação com o racismo tão presente em sua cidade. A ingenuidade de Scout faz com que o leitor perceba o absurdo do racismo justamente porque ela ainda não aprendeu a naturalizá-lo.
Mesmo depois de tanto tempo, o conteúdo da história permanece muito atual. A narrativa conta a vida de uma família do condado de Maycomb. Classificado como um romance, o livro é narrado por uma criança de 7 anos, Scout, uma menina filha do famoso advogado da região, Atticus Finch, que, ao ser designado para defender um caso de estupro, vê-se sem saída.
O conto, que no início era apenas Jean Louise, Scout, contando sobre suas férias com Dill, seu “noivo” e melhor amigo, e seu irmão, Jem, aos poucos evolui para uma narrativa mais complexa ao desenvolver assuntos como racismo, questões sociais e machismo, demonstrando a lamentável permanência desses problemas no mundo atual e na década de 1930.
Assim, quando Atticus é obrigado a defender um homem negro no século XX, os sentimentos, velhos ja que se perpetuam por tanto tempo, em relação a esse momento, aumentam muito, pois Scout começa a perceber o que a rodeia.
Dessa forma, é mais do que um julgamento, o caso de Tom Robinson revela como o sistema de justiça pode reproduzir os preconceitos da sociedade, transformando a cor da pele em um elemento mais importante do que as provas apresentadas. Depois de se meter em muitas brigas, por exemplo com seu primo Francis, que a incomodava dizendo que seu pai defendia pretos e gostava de negros, ela entende que é diferente dos habitantes de seu município. O que, para a população de Maycomb, era algo sem honra, para sua família significava lutar para dar liberdade a alguém que merecia os mesmos direitos de qualquer pessoa branca.
Sua família era especial, principalmente seu pai, ao comentar para sua filha: “Querida, não se importe de ser chamada de algo que as pessoas acham que é um insulto. Isso só mostra como essa pessoa é mesquinha e não a atinge”, depois de Scout perguntar a ele o que seria ser um admirador de pretos. Isso apenas mostra que ela nunca entendeu o motivo de tanto racismo, que ela nunca foi ensinada a ser racista, mesmo, às vezes, reproduzindo esse comportamento, pois todos os seus amigos da escola faziam o mesmo. Desse modo, Atticus representa a integridade moral em uma sociedade marcada pelo preconceito. Sua maior lição não está apenas em defender um inocente, mas em ensinar aos filhos que empatia significa tentar enxergar o mundo pelos olhos do outro.
No decorrer da história, o leitor percebe traços de amadurecimento tanto de Jean Louise quanto de seu irmão, como quando, em um diálogo entre os dois, Scout fala: “Eu só acho que exista um tipo de gente: gente”, e Jem expõe seu ponto: “Quando tinha sua idade também achava isso. Se só existe um tipo de gente, por que as pessoas não se entendem? Se todos são iguais, por que se esforçam para desprezar uns aos outros?”, demonstrando, assim, que, mesmo tendo vivido em um ambiente social pacato, conseguem se distanciar do que lhes foi mostrado naquela época.
Assim, quando terminei o livro, fiquei alguns minutos em silêncio em respeito à obra. Quando um livro é bom, dificilmente consigo voltar à minha rotina normal após finalizá-lo. O Sol é para Todos permanece atual porque mostra que o preconceito não nasce com as pessoas, mas é aprendido dentro da sociedade. Ao acompanhar o amadurecimento de Scout, o leitor também é levado a questionar os próprios valores e a forma como a injustiça pode ser perpetuada quando é aceita como normal. Em poucas páginas, ele me fez pensar em tudo o que um dia já fui, no que sou e no que ainda quero mudar no futuro.

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