
Conversando com um amigo meu, descobri que talvez a Isadora que ele conhece não seja a mesma que estuda na faculdade, que trabalha, que apresenta trabalhos, que namora e que convive com a família.
Então, me pergunto: o quanto nos escondemos dos outros para caber na vida deles?
Nesse caso, reconheço que não é exatamente para caber no universo dos outros, mas porque ele não acredita que eu possa ter mudado ou ser diferente daquilo que ele já sabe sobre mim.
Existem uma série de fatores que fazem as pessoas acreditarem que conhecem alguém. Um deles é a necessidade de estabilidade, que nos faz crer que conhecemos uma pessoa, nos dando conforto e reduzindo nossa ansiedade diante do imprevisível. Outro é a compartimentalização: na maior parte do tempo, interagimos com as pessoas em papéis específicos — colega de trabalho, vizinha, amigo, namorada. Assim, vemos apenas uma face de cada indivíduo e confundimos essa parte com a totalidade de sua identidade.
Desse modo, “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, como dizia Heráclito. Tudo flui e nada permanece igual. O homem que entrou no rio pela primeira vez não é o mesmo que entrou na segunda, e a água também mudou.
Isso mostra que a mente humana é um sistema complexo e dinâmico. O que chamamos de conhecer alguém costuma ser apenas uma familiaridade com os padrões habituais daquela pessoa.
Assim, somos diferentes para cada pessoa, pois nossa personalidade é multifacetada e moldada pelas interações que temos ao longo da vida, revelando uma grande flexibilidade social.
Agimos como um espelho social: ajustamos nosso comportamento com base no contexto, no nível de intimidade e nas respostas que recebemos dos outros.
No final, todo mundo vê fragmentos únicos de nós, mas ninguém vê o quadro inteiro.
Essas diferentes versões de nós existem por diversos motivos psicológicos e sociais, como a adaptação social — quando ajustamos nosso comportamento para facilitar a convivência —, o espelhamento — quando sincronizamos nossa energia com a dos outros —, o histórico das relações — já que cada vínculo exige uma forma diferente de interação — e as múltiplas facetas da personalidade, que fazem com que mostremos partes distintas de quem somos dependendo dos interesses e das conexões que compartilhamos.
Dessa maneira, como dizia Jane Roberts, “somos uma multidão de eus”.
Talvez seja por isso que ninguém consiga nos conhecer por completo. Cada pessoa conhece apenas uma versão nossa, construída pelos momentos que compartilhamos com ela. E talvez a parte mais curiosa disso tudo seja perceber que, enquanto os outros tentam entender quem somos, nós também estamos descobrindo. Afinal, estamos mudando constantemente.

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