
O que seria, afinal, uma mulher poliamorosa?
O patriarcado faz a mulher acreditar que seu único grande amor deve ser o do namorado ou do marido, mas a verdade é que ela pode viver muitos outros amores sem necessariamente sair da monogamia.
Parece meio óbvio, mas em um mundo em que o patriarcado reina e o conservadorismo caminha ao seu lado, as mulheres são marcadas diariamente por um sentimento de insuficiência, uma ferida que as faz buscar constantemente provas de que são dignas de amor. Como aponta bell hooks, muitas mulheres aprendem desde cedo a associar amor com dor, sacrifício e validação masculina.
Como na série Sex and the City, em que muitas vezes a Carry deixa na mão suas amigas para sair com o Big.

Talvez, por isso, seja tão difícil conciliar o amor platônico com o amor romântico.
Muitas vezes, o amor platônico — das amizades, das irmãs, das pessoas que escolhem ficar — pode ser até mais importante que o romântico. É ele que te mostra coisas novas, que te permite existir sem prisão, que te faz dançar sem culpa e que não exige que você se anule para ser amada.
Diferente de muitos relacionamentos amorosos, esse amor não te prende, não exige submissão e não transforma cuidado em obrigação. Ele não pede que você faça comida enquanto o outro está sentado assistindo televisão.
Muitos filmes brasileiros mostram exatamente isso: que o único amor forte não é o sexual. Em Minha Mãe é uma Peça, por exemplo, existe uma cena muito marcante em que o amor entre irmãs aparece com mais força do que muitos romances. Já em Elis, o filme da cantora Elis Regina, a personagem principal é retratada através de laços profundos de amizade, cumplicidade e conexão.
Por isso, é tão importante saber que até pouco tempo o mansplaining- quando o homem acha que sabe mais de algo sobre as mulheres- era frequentemente usado nas histórias femininas, e afetando diretamente a percepção das jovens sobre assuntos amorosos.
Mesmo assim, o casamento ainda ocupa o centro de tudo. As mulheres são ensinadas desde pequenas a colocarem todos os seus afetos dentro de um relacionamento amoroso, como se o sucesso da vida dependesse disso. E, nessa tentativa, acabam se anulando tanto que até seus próprios pensamentos parecem atravessados pela presença masculina.
Essa internalização é tão profunda que muitas vezes passa despercebida.
O amor platônico não tem peso, é só amor.
Então por que não falamos mais sobre isso? Por que ainda existe tanto preconceito quando uma mulher coloca amizades e outras relações afetivas no mesmo nível — ou até acima — do amor romântico?
Desde pequena, fui ensinada a nunca ser amiga demais de alguém. Meus pais sempre diziam que isso era perigoso, porque amigos poderiam influenciar negativamente, levar para caminhos errados, enquanto a família sempre estaria ali. Para eles, amizade nunca foi sinônimo de segurança.
E, mesmo discordando em partes, percebo que ainda coloco meu namorado antes dos meus amigos.
Mesmo idealizando amizades profundas, como as que vejo em Minha Mãe é uma Peça ou em As meninas, de Lydia, ainda sinto dificuldade de ser completamente transparente com alguém. Hoje tenho um grupo de amigos maravilhoso, mas ainda acho difícil me comunicar abertamente com eles.
Talvez porque fomos ensinadas a amar romanticamente com intensidade, mas nunca a amar nossas amizades com a mesma entrega.
Agora entendo que toda essa influência para não confiar nas amizades foi inútil. Porque, para mim, ter amigos continua sendo uma das melhores formas de amor que existem.

vinho vida e vitórias
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