
Recentemente, ouvi uma pessoa próxima de mim falando sobre mulheres que vivem em relacionamentos tóxicos e continuam com homens agressivos. Parafraseando ele: “essas mulheres que mesmo sendo agredidas continuam com esses homens são vagabundas mesmo, gostam de sofrer”. Naquele momento, percebi que talvez faltasse estudo sobre o assunto, porque antes de julgar, é preciso entender como funciona esse tipo de relação.
Um relacionamento tóxico começa de várias formas, mas uma das principais é quando a pessoa te faz criar uma dependência emocional nela. Ela aparece intensamente em um dia e depois some por três, depois volta como se nada tivesse acontecido. Já dentro do relacionamento, isso continua em ciclos: primeiro está tudo ótimo, depois, em um dia aleatório, a pessoa briga com você; em seguida, pede desculpas se vitimizando ou até faz você pedir perdão por um erro que foi dela. Depois vem a fase da lua de mel, onde tudo parece perfeito de novo, e então o ciclo recomeça.
Nesse processo, a vítima vive sempre na expectativa de fazer os momentos bons durarem mais tempo. Como aponta a psicóloga Marta Novoa, especialista em relacionamentos e autora do livro Amor del Bueno, em entrevista para a BBC News: “Sabemos que o momento agradável vai voltar e ficamos viciados esperando que volte, pois temos certeza de que no fim das contas sempre volta”. Esses momentos de euforia são tão agradáveis que muitas vezes fazem a pessoa esquecer dos momentos ruins.
Nesse caminho, o termo gaslighting explica muito bem o que acontece. O agressor distorce a realidade da vítima até que ela passe a confiar mais nele do que em si mesma. Isso é muito comum em relacionamentos abusivos, onde a pessoa passa a acreditar que está apanhando porque merece, ou porque fez algo errado, já que ele a convenceu disso.
Outra forma de manipulação é chamada de FOG (fear, obligation and guilt — medo, obrigação e culpa). Esses três pilares formam a base da chantagem emocional e prendem a vítima de uma forma silenciosa, como explica Susan Forward.

Seguindo esse contexto, a psicóloga brasileira Elisama Santos também trabalha esse conceito e explica que FOG significa “neblina”, uma metáfora muito forte para mostrar como essas forças mantêm as vítimas presas em relações abusivas. A manipulação emocional cria uma fumaça que turva a percepção da realidade, fazendo com que a pessoa não consiga enxergar com clareza o que está acontecendo.
Desse modo, consegue-se analisar que a chantagem emocional é tão forte que a pessoa muitas vezes nem percebe que está sendo vítima de agressões. Por isso, dizer que ela “gosta de sofrer” não é apenas falta de empatia, mas também falta de conhecimento. Ninguém permanece em um relacionamento abusivo porque quer, mas porque sair dele exige muito mais do que coragem — exige consciência, apoio e, muitas vezes, reconstrução emocional inteira.
Nesse cenário, a mulher não permanece porque gosta de sofrer, mas porque está emocionalmente presa, confusa e muitas vezes sem apoio para sair daquela situação.
Por isso, culpar a vítima é sempre o caminho mais fácil — e também o mais ignorante. O mais difícil, e mais necessário, é entender que a violência psicológica aprisiona antes mesmo da violência física aparecer.

- O que fica depois da morte?
- Por que todo dia a mesma noite?
- “É preciso muita coragem para ser mulher”
- Sinto falta do que não vivi
- Em uma casa escura

Deixe um comentário