
Meu tio morreu.
Recentemente, publiquei um texto sobre a morte aqui no blog. Pouco tempo depois, ela bateu à porta da minha família.
Escrevi sobre a morte achando conhecê-la pelos livros. Depois desse episódio talvez tudo que eu sabia e a preparação para isso não foi suficiente para lidar com tudo.
Foi minha primeira experiência tão próxima da morte. Antes, ela parecia um enfeite na prateleira da minha mãe: eu a via de longe, mas nunca conseguia alcançá-la. Dessa vez, foi ela quem me alcançou.
Foram dias difíceis, marcados por muito choro. Embora cada pessoa tenha vivido o luto de uma maneira diferente, eu sabia que, em algum momento, todos haviam despejado muitas lágrimas por aquele ente querido.
Quem mais sofreu foi minha avó. Ela viveu mais de vinte anos ao lado do filho e, para uma mulher de quase noventa anos, esse tempo representa uma vida inteira.
Sua dor apareceu de muitas formas. Primeiro, pelas lágrimas. Sempre que eu a encontrava no quarto ou na sala, seu rosto estava molhado. Depois, pela falta de apetite. Adiava o café da manhã e dizia que não tinha fome no almoço. Com o passar dos dias, conseguimos convencê-la a comer prometendo um pedaço de chocolate depois da refeição. Curiosamente, era difícil vê-la chorando quando segurava um doce nas mãos, parecia que, por alguns instantes, o açúcar ocupava o espaço de sua dor.
Meu pai viveu o luto de forma diferente. Vi-o chorar apenas algumas vezes, mas o sofrimento aparecia no silêncio. Às vezes permanecia calado por longos períodos; em outras, dizia sentir paz por ter conseguido cuidar do irmão e lhe proporcionar alguns dias de conforto em sua casa. Mesmo tentando esconder, era possível perceber sua dor.
A vida não será mais a mesma. Ainda me lembro do corpo do meu tio no caixão e da minha avó repetindo, entre lágrimas:
— Meu filhinho… por que Deus te tirou de mim? Por que não fui eu?
Acho que essa frase ficará comigo por muito tempo.
Um dia depois do enterro, tive consulta com meu psiquiatra. Ele explicou que, para minha avó, recordar a própria vida é também reviver o filho. Por isso, muitas vezes, quando ela começava a chorar, eu tentava acalmá-la perguntando sobre histórias dele. Nem sempre funcionava. Quem realmente conseguia tranquilizá-la era meu pai. Bastava ele chegar para que seu semblante mudasse um pouco.
Na semana seguinte, sonhei com meu tio. Na igreja do sonho, ele apenas olhava ao redor. Não dizia nada. Chorava porque quase ninguém tinha ido. Quando acordei, pensei que fosse apenas um pesadelo. No dia da missa de sétimo dia, porém, a igreja realmente estava quase vazia, estavam presentes apenas seis familiares, além do meu namorado e da minha melhor amiga. Ao ver a igreja quase vazia, senti uma tristeza profunda. Pensei que, se existe algo depois da morte, talvez ele estivesse ali triste.
Minha psicóloga me disse que lembrar quem ele foi em vida, seus desejos, sua história e sua humanidade, é uma das formas mais bonitas de honrar sua existência. Talvez ela tenha razão.
A morte continua doendo para quem fica, porém, o desafio não é esquecer a dor, mas viver com ela. Mas, aos poucos, percebo que o luto também é uma forma de amor, como no livro: “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório, que, no romance, pedro, tenta reconstruir a história do pais depois de sua morte, misturando lembranças, imaginação e afeto. Percebi que o luto também é isso: continuar narrando quem partiu para que sua existência não seja resumida ao dia em que morreu. Quando alguém parte, continuamos cuidando dessa pessoa da única maneira que ainda nos resta: contando sua história, lembrando de seus gestos e impedindo que sua vida seja reduzida apenas ao dia em que morreu.

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