Como o Talibã transformou mulheres em alvo no regime?



Hoje, o Afeganistão está sendo marcado por uma crise humanitária severa, insegurança alimentar, crise de refugiados, isolamento político, desastres ambientais e o apartheid de gênero, como a organização das Nações Unidas (ONU) classificou a situação das mulheres como um “sistema de opressão de gênero institucionalizada”.

E, com tudo isso, o país continua sendo governado pelo Talibã, que não possui reconhecimento diplomático formal e eliminou todos os direitos civis e liberdades políticas previstos na antiga constituição para mulheres e crianças. E desde sua segunda chegada ao controle, em 2021, o sistema promulgou mais de 230 decretos que retiram garantias básicas de mulheres e meninas, além do novo código de processo penal formalizar a discriminação e legitimação da violência para as mesmas, tornando-as propriedades dos esposos.

Como tudo começou?

O Afeganistão, localizado em uma posição estratégica, sempre foi uma importante rota de passagem de povos, mercadorias e culturas. Durante a Guerra Civil Afegã, milhares de famílias enviaram seus filhos para as madraças (famosas escolas religiosas islâmicas). Nessas escolas, exclusivamente de meninos, os jovens recebiam uma educação fortemente religiosa, com o propósito de aprenderem estratégias militares, religião e, muitas vezes, como utilizar armas.

Assim, o Talibã surgiu, justamente, entre esses estudantes, pois nesse nome é plural de talib, que significa estudante, seu criador foi um ex-comandante da resistência afegã. Desse modo, esses jovens cresceram em meio aos conflitos, tiveram pouco contato com uma educação diversa e conviviam em ambientes apenas masculinos. Resultando em uma consolidação de ideias patriarcais, conservadoras e tradicionais.

Depois de anos de guerra, quando esse sistema conquistou o poder pela primeira vez, em 1996, o Talibã prometeu restaurar a ordem e a segurança, abaladas no tempo de confronto. Inicialmente, parte da população apoiou o movimento.

No entanto, durante o primeiro governo do Talibã (1996–2001), foram impostas severas restrições às mulheres. Elas foram proibidas de trabalhar na maioria das profissões, de frequentar escolas e universidades, de circular sem um acompanhante masculino e, em diversas situações, da vida pública.

Como o Afeganistão está hoje?

Atualmente, o Afeganistão está sob o segundo governo Talibã, que retomou o poder, em 2021, depois de um anúncio de saída das tropas norte-americanas.

O grupo voltou ao comando cerca de 20 anos depois de ter sido removido do controle em decorrência da intervenção militar liderada pelos Estados Unidos.As restrições impostas pelo Talibã, são reforçadas por tradições patriarcais presentes em parte da sociedade afegã, como explica a Adriana Carranca, escritora e jornalista, no podcast: “o assunto” do G1, o Pashtunwali, um código tribal seguido por muitos cidadãos, estabelece regras relacionadas à honra, à família e ao casamento, atribuindo aos homens autoridade sobre a vida das mulheres e limitando sua autonomia.

Dessa forma, muitas aldeias do Afeganistão predominam, muitas vezes, o conservadorismo e o tradicionalismo, seguindo rigorosamente tal princípio.

Assim, nos últimos anos, o Talibã tem incorporado parte dessa visão às leis e decretos do país. Organizações de direitos humanos, como a ONU, alertam que essas medidas fortalecem o controle masculino sobre as mulheres e dificultam que elas deixem casamentos forçados ou abusivos, estudarem, trabalharem ou, até, falar em público. Na prática, ao transformar essas normas em legislação, as mulheres encontram ainda mais obstáculos para fugir da violência ou buscar proteção do Estado.

Além disso, para piorar a situação, o Afeganistão está em guerra com o Paquistão.

Restrições:

Hoje, o Afeganistão é um dos regimes mais restritivos do mundo para mulheres e meninas, de acordo com a ONU.

Assim, as principais limitações estão:

  • Educação: Proibição da educação para meninas acima do ensino fundamental: uma menina que conclui o ensino fundamental não pode continuar os estudos. Isso significa que milhares de adolescentes deixam a escola sem perspectiva de formação profissional ou independência financeira.
  • Trabalho: Severas restrições ao trabalho feminino: mulheres já formadas não podem exercer sua profissão.
  • Circulação: Limitações à circulação sem acompanhante masculino em diversas situações: uma menina, nem uma mulher podem sair na rua sem algum familiar homem as acompanhando.
  • Uso de celular: E atualmente, o Talibã esta proibindo o uso de celulares pelas mulheres, para não haver compartilhamento e exposições do que acontece no Afeganistão. 
  • Vestimenta: Imposição de códigos rígidos de vestimenta: Elas não podem sair sem tapar completamente o rosto, os ombros e as pernas.

Com esse sentido, existe uma história muito triste: “meu nome é pavarna” -Deborah Ellis, retrata justamente esse contexto ao acompanhar uma menina afegã vivendo sob o regime Talibã. Isso ilustra como as normas afetam o cotidiano das mulheres e meninas, evidenciando a violência sofrida por quem desrespeita os rígidos códigos impostos pelo regime e, talvez, mostra como as pessoas que vivem lá não possuem consciência da agressão que estão fazendo com as cidadãs, porém justificam com a ideia de ser por causa da religião.

  • ProtestosRepressão a protestos e ativismo feminino: mulheres que ousam sair às ruas para exigir liberdade, trabalho e educação são frequentemente detidas pela polícia da moralidade sob a acusação de violar os rígidos códigos de vestimenta.

Portanto, em uma entrevista para à DW (Deutsche Welle, empresa pública de comunicação), afegãs, com as identidades em segredo, disseram: ”Cada mulher presa hoje em Herat é um símbolo do sofrimento de milhões de mulheres afegãs que vivem sob a sombra de um apartheid de gênero”.

Além disso, quem se manifestar contra as reações do talibã com as mulheres é respondido com violência. Como aconteceu em 12 de junho de 2026, homens que foram as ruas fazer protesto contra as prisões de mulheres foram violentamente agredidos.

Assim, os protestos em Herat não foram apenas uma reação às prisões. Também mostraram que parte da sociedade afegã ainda está disposta a desafiar a autoridade do Talibã, apesar dos riscos.

  • Falar em público: Proibição de falar em público: silenciamento total, a voz das mulheres é considerada uma parte sexual do corpo dela, assim só o seu esposo pode ouvi-la. Leis baseadas na interpretação radical da Sharia permite que tal atitude seja legalizada.
  • Casamento: Casamento foi aceitado para meninas a partir de 9 anos: a prática do casamento infantil foi efetivamente legalizada, o novo código facilita e legitima casamentos infantis. O silêncio de uma “menina virgem” deve ser entendido como um “sim”. A medida é apontada por especialistas internacionais como a institucionalização do estupro infantil e da violência doméstica.

Porque as mulheres?

Em uma reportagem da DW, o vice-chefe do Conselho de Pesquisa dos Ulemás do Afeganistão, Mohammad Osman Tariq, afirmou que as medidas recentes indicam apreensão dentro do regime Talibã.

Tariq rejeita interpretação de que esse governo costuma apresentar muitas restrições às mulheres como questões religiosas, e sustenta que o endurecimento tem como principal objetivo preservar o poder.

“Uma das razões pelas quais a atual administração talibã está endurecendo o controle e não permite que ninguém – nem mesmo mulheres – saia para protestar, e até quer proibir smartphones, é que vê tudo isso como uma ameaça ao seu domínio e existência”, disse na reportagem. “Por isso, busca evitar isso de forma rígida.”

Segundo o estudioso, algumas mudanças de humor da população estão ocorrendo, consequentemente insatisfação com o governo, principalmente daqueles que inicialmente o apoiavam.

Shinkai Karokhail, ex-parlamentar afegã, diplomata e ativista de direitos humanos, comenta que na ideia do Talibã as pessoas precisam ser fortemente reprimidas para não elevarem a voz e mostrarem descontentamento, e para o regime, as mulheres são o alvo mais fácil, assim as violentam para manter o poder.

Dessa forma, por isso que as mulheres afegãs são as mais atingidas.

Quando um governo decide controlar as mulheres, ele não restringe apenas seus direitos individuais. Controla famílias, educação, trabalho e o futuro de toda uma sociedade. Talvez seja por isso que a situação das mulheres afegãs tenha se tornado um dos maiores símbolos contemporâneos da violação dos direitos humanos.



Resposta

  1. Avatar de Jedison Iacks

    parabéns pela newsletters

    Curtir

Deixe um comentário