Quando a morte bate à porta



Vivendo um momento de tensão em casa, alguns temas me fizeram refletir, como a religião e a morte.

Nunca fui muito religiosa, porém agora talvez precise ser, ou pelo menos ter algo em que me apoiar.

Meu tio está em estado terminal de câncer e, com isso, minha família está um tanto mais religiosa do que o normal.

Sempre pensei que a religião fosse algo em que as pessoas acreditam quando tudo desmorona, uma forma de, diante da morte, acreditar que não vão permanecer apenas em um caixão, mas que irão para o céu. Também a via como uma maneira de seguir uma ética, como os Dez Mandamentos. Mas agora meu pai me mostrou que talvez seja preciso mais do que isso.

A morte nunca me assustou. Desde que li A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver, obra emocionante que nos convida a repensar nossa relação com a finitude, senti menos medo ainda. A autora, Ana Claudia Quintana Arantes, especialista em Cuidados Paliativos, argumenta que a consciência da morte nos dá a oportunidade de viver uma vida com mais propósito, presença e dignidade.

Porém, a morte também nunca chegou muito perto de mim. Tão perto quanto agora.

Então comecei a me assustar com tudo isso.

Quando ouvi que meu tio estava em cuidados paliativos, fiquei aterrorizada. Não soube como reagir. Foi então que o medo da morte bateu à minha porta.

Aí percebi que não adiantava nada todos os livros que já li sobre morte, porque ela estava longe. Não tinha como me sentir verdadeiramente atingida por algo que parecia estar a quilômetros de distância de mim. Porque, compreender racionalmente a morte é muito diferente de vê-la se aproximando de alguém que amamos.

 A teoria nos prepara para pensar. A experiência nos obriga a sentir.

No decorrer dos dias, me senti a protagonista de Se Deus Me Chamar Não Vou. Claudinha, uma menina de 11 anos, tem pavor da morte e acaba sofrendo vários ataques de pânico por acreditar que vai morrer. O medo se intensifica quando ela percebe que a loja de velhos dos seus pais serve apenas para tornar a vida dos idosos melhor, e não para salvá-los.

Assim, a minha vida mudou desde que meu tio foi diagnosticado com câncer.

Pensamentos que antes nunca tive, medos que antes nunca tive, tornaram-se presentes.

E, como Claudinha, também tenho minhas dúvidas sobre a existência de Deus. E, se Ele chamar meu tio, sentirei uma tristeza imensa. Mas, como Ana Claudia mostra em seu livro, minha vida não poderá parar.

A partida não pesa quando está longe. Porém, à medida que se aproxima, tudo se duplica: a preocupação, o terror, o receio de não ter vivido ao lado da pessoa por tempo suficiente, de não ter amado o suficiente e de não ter aproveitado sua presença.

A música Águas de Março, ainda que indiretamente, me faz pensar nesses dois sentidos da vida: o dia e a noite, o começo e o fim. E quando diz “é promessa de vida no teu coração”, parece lembrar que a vida só existe porque há algo a ser vivido. Ao mesmo tempo, a canção transmite uma certa naturalidade, como a sucessão inevitável entre um dia e uma noite.

Talvez a última viagem de alguém deva ser leve.

E talvez a única coisa que possamos fazer seja oferecer presença, carinho e dignidade. Não podemos impedir a partida, mas podemos ajudar a tornar o caminho menos doloroso.

Talvez seja, principalmente, para quem fica.



vinho vida e vitórias

Respostas

  1. Avatar de Jedison Vargas

    parabens, aborda-se um assunto complexo com profundidade.

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  2. Avatar de great6aa04af3c6

    A morte ainda é pouco conversada infelizmente, por mais que seja a única certeza a partir do momento que se nasce. Ela precisa deixar de ser um tabu e precisa ser mais “conversada” na sociedade… Precisamos preparar as pessoas para as perdas da vida.

    Digo isso porque queria sofrer menos com isso, fui muito protegida da morte…

    Isa tu colocas teus pensamentos e sentimentos lindamente em palavras e consegues nos fazer refletir de forma muito bonita. Tens uma habilidade incrível e uma linda jornada pela frente!

    Parabéns meu amor!

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    1. Avatar de isadora iacks

      muito obrigada, gostaria de sofrer menos com esse assunto tambem, é muito triste…

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