Por que é tão normal sentir raiva de sua mãe?



Recentemente, lendo Se Deus Me Chamar Não Vou, percebi algumas semelhanças com a realidade infantil feminina. Por exemplo, o quanto algumas filhas parecem não gostar de suas mães ou não atingir o ideal de amor esperado pela sociedade.

Assim, lembrei e pesquisei um pouco mais sobre os mitos de Édipo e de Electra.

Uma obra de arte ou um mito são como um sonho: eventos simbólicos ricos em significado, capazes de expressar emoções, desejos, conflitos e fantasias.

Electra traduz o conflito entre mãe e filha por meio de sentimentos intensos, repletos de fantasias de morte, vingança e ódio, que podem levar tanto ao sadismo quanto ao masoquismo.

Os mitos de Édipo e de Electra são parecidos porque ambos mostram a disputa com o genitor do mesmo sexo e a busca pela atenção e pelo amor do genitor do sexo oposto. Porém, também apresentam diferenças importantes.

No caso de Édipo, ele não desejava matar o pai. Ao ouvir uma profecia dizendo que faria isso, decidiu fugir de quem acreditava serem seus pais para evitar que ela se realizasse. No entanto, sem saber que eles eram seus pais adotivos, acabou encontrando e matando o verdadeiro pai, cumprindo o oráculo sem intenção.

Já Electra planeja durante muitos anos o assassinato da própria mãe. Ela alimenta um profundo rancor por acreditar que sua mãe, junto com o amante, matou seu pai. Após anos de espera, consegue executar sua vingança com a ajuda do irmão, matando Clytaemnestra.

Nesse sentido, a história apresenta uma filha que vê a mãe como rival, inimiga ou alguém que a privou de algo importante. Na Psicologia, especialmente na tradição psicanalítica, o mito passou a simbolizar sentimentos que algumas filhas podem experimentar durante o desenvolvimento, como a competição pela atenção e aprovação do pai, o ciúme da mãe, o desejo de independência da figura materna, a raiva, o ressentimento e os conflitos relacionados à identidade.

Assim, geralmente, a menina tende a perdoar o pai com mais facilidade do que a mãe. Ela pode idealizá-lo na esperança de encontrar nele aquilo que acredita não receber da figura materna, já que, muitas vezes, a menina passa a enxergar os pais de forma dividida: o pai como bom e protetor, e a mãe como rígida ou injusta. Na adolescência, entretanto, também ocorre um movimento de afastamento do pai, uma vez que qualquer sugestão de vínculo amoroso ou erótico torna-se desconfortável para ambos.

O que mais me chamou atenção em Electra não foi o assassinato da mãe, mas a intensidade dos sentimentos envolvidos. Afinal, quantas filhas nunca sentiram raiva da mãe e depois culpa por sentir essa raiva? Quantas vezes esperamos que uma relação seja perfeita apenas porque existe amor? Talvez o mito sobreviva há tanto tempo porque fala de sentimentos que continuam existindo, mesmo que poucas pessoas tenham coragem de admiti-los.

De forma simples, o mito de Electra sugere que a relação entre mãe e filha pode envolver amor, admiração, dependência, mas também rivalidade, raiva e desejo de diferenciação. Independentemente de a menina se afastar ou não da mãe, sentimentos negativos costumam criar vínculos tão intensos quanto os positivos.

O ódio prolongado e a decepção em relação à mãe podem gerar conflitos importantes. Esses conflitos femininos são justamente aqueles que o mito de Electra busca representar.

O meio-termo entre a total identificação e a completa rejeição parece oferecer as melhores condições para uma vida emocional satisfatória. Certo grau de ambivalência é inevitável, pois as meninas nem sempre conseguem expressar livremente sentimentos hostis em relação à mãe, de quem continuam necessitando afetivamente.

A combinação de amor e ódio dirigida à mesma pessoa pode ser especialmente dolorosa. Muitas mulheres carregam uma voz materna internalizada que continua influenciando sua autoestima mesmo na vida adulta. Algumas ainda temem a desaprovação da mãe muitos anos depois da infância.

Mesmo quando a menina está muito focada na relação com a mãe, ela também pode desenvolver uma forte ligação afetiva com o pai. Quando surgem conflitos maternos, é comum que ele seja idealizado como alguém mais compreensivo ou acolhedor.

Já no caso do menino, Freud utilizou o mito de Édipo para explicar uma fase do desenvolvimento em que ele direciona fortes desejos à mãe e passa a ver o pai como rival. No entanto, Freud também observou que o desenvolvimento feminino não segue exatamente o mesmo caminho do masculino. Em geral, a menina não rompe completamente com a mãe, mas permanece ligada a ela de forma ambivalente.

Por isso, a rejeição hostil à mãe não necessariamente favorece o desenvolvimento da feminilidade. Muitas vezes ela indica conflitos internos que ainda não foram elaborados.

O espelhamento e a competição podem surgir porque ambas compartilham experiências semelhantes enquanto mulheres. Algumas mães enxergam as filhas como extensões de si mesmas, o que pode gerar cobranças excessivas ou até rivalidade.

As expectativas culturais também desempenham um papel importante. Frequentemente, as filhas recebem mais responsabilidades emocionais e domésticas do que os filhos homens, reproduzindo desigualdades de gênero presentes na sociedade.

Por fim, traumas e padrões familiares podem atravessar gerações. Muitas mães repetem, de forma inconsciente, comportamentos que vivenciaram na própria infância, transmitindo conflitos que nunca conseguiram elaborar completamente.

Talvez seja por isso que histórias como a de Electra continuam tão atuais. Elas não falam apenas de tragédias antigas, mas de sentimentos difíceis de admitir: inveja, raiva, rivalidade, dependência e necessidade de amor. A relação entre mãe e filha raramente é simples. E talvez o mito sobreviva há tantos séculos justamente porque continua oferecendo uma linguagem simbólica para conflitos que ainda fazem parte da experiência humana.



vinho vida e vitórias

Respostas

  1. Avatar de Administrativo Focus Formatura

    parabéns

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  2. Avatar de Jedison Focus

    parabens

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