
Recentemente, comecei a ler o livro Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, e algumas partes me chamaram extrema atenção.
Nos três primeiros capítulos, os dados apresentados — baseados em pesquisas e repertórios de autoridade — mostram uma grande divergência entre pensamentos femininos e masculinos. Enquanto as mulheres tendem a ser mais reflexivas em relação a questões sociais, muitos homens demonstram dificuldade em reconhecer esses mesmos problemas.
Um exemplo claro disso aparece quando mulheres brancas afirmam que pessoas negras são tratadas pior na sociedade — cerca de 70% concordam com isso. Já entre homens brancos, mais de 65% acreditam que essas pessoas são tratadas de forma igual ou até melhor.
A partir desses dados, percebe-se que uma parcela significativa de homens brancos não reconhece problemas sociais evidentes, mesmo ocupando, muitas vezes, posições de poder, como na política. E isso não parece ser apenas falta de informação ou de estudo, mas também reflexo de uma estrutura patriarcal, na qual homens tendem a escutar e validar mais outros homens do que outras perspectivas.
Nesse contexto, movimentos como o “redpill” ganham força, reforçando ideias de superioridade masculina, submissão feminina e rejeição ao diferente — conceitos que dialogam com pensamentos autoritários historicamente já vistos em outras ideologias, como fascismo e nazismo.
Dessa forma, essa diferença de percepção entre homens brancos e o restante da população precisa ser refletida. Afinal, o Brasil de 2023 ainda carrega muitos padrões de pensamento que já existiam décadas atrás.
Essa divergência revela algo importante: não se trata apenas de opinião, mas de percepção da realidade.
Muitas vezes, quem não vive determinadas situações tem mais dificuldade de reconhecê-las. E isso pode estar relacionado a uma estrutura social em que certas vozes são mais ouvidas do que outras.
Assim, mesmo com o passar do tempo, certas estruturas sociais permanecem praticamente inalteradas, dificultando avanços reais na sociedade.
Por isso, é difícil imaginar um país mais desenvolvido enquanto o patriarcado, o conservadorismo rígido e o tradicionalismo continuarem moldando essas visões. Uma sociedade só evolui quando reconhece seus próprios problemas.
E, talvez, o primeiro passo seja justamente esse:
que homens — especialmente os que ocupam posições de privilégio — consigam enxergar o mundo também a partir da perspectiva de quem vive essas desigualdades.


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