Feminismo e a idealização da alma gêmea



O discurso sobre alma gêmea ganhou muita força nos últimos 200 anos. Com a cultura popular, a religião e até a filosofia, esse pensamento se espalhou e passou a fazer parte do imaginário coletivo. Porém, junto com essa idealização também surgiram alguns problemas psicológicos, como sentimentos de solidão, rejeição e frustração.

A ideia de ter um parceiro perfeito, feito exclusivamente para você, foi romantizada e reforçada por diversos meios de comunicação, como a igreja, os filmes e as séries. Além disso, o patriarcado teve um papel importante nesse processo, ao ensinar gerações inteiras que os relacionamentos românticos deveriam ser prioridade na vida das pessoas, muitas vezes acima de outras formas de relação, como amizades, família ou até projetos pessoais.

Dessa forma, o ideal romântico se torna quase impossível de alcançar. Ele faz as pessoas acreditarem que existe, em algum lugar do mundo, um par perfeito esperando por elas. Muitas vezes, em momentos de fragilidade emocional, essa ideia parece reconfortante, pois responde a medos muito humanos, como o medo da solidão ou do abandono.

O problema não está necessariamente em quem acredita na existência de conexões profundas ou em quem sabe que relacionamentos reais possuem imperfeições e são construídos com o tempo. O problema aparece quando se acredita, desde o primeiro encontro, na ideia de uma alma gêmea perfeita, como frequentemente é mostrado em filmes e séries. A mídia acaba oferecendo uma espécie de segurança emocional ilusória.

A própria filosofia ajudou a consolidar essa narrativa. No diálogo O Banquete, de Plato, aparece o famoso mito de que os seres humanos teriam sido, originalmente, completos: possuíam quatro braços, duas cabeças e eram extremamente poderosos. Os deuses, temendo essa força, decidiram dividi-los ao meio. Desde então, cada pessoa estaria condenada a procurar sua outra metade.

Esse mito reforça a ideia de que não somos completos sozinhos e de que precisamos de outra pessoa para nos tornarmos inteiros.

Dentro de uma sociedade patriarcal, essa narrativa também favorece os homens. Em muitos relacionamentos, as mulheres acabam assumindo papéis emocionais e afetivos muito intensos: escutam, aconselham, acolhem e cuidam, muitas vezes funcionando quase como uma figura materna dentro da relação.

Ao mesmo tempo, nessa lógica cultural, as mulheres são frequentemente estimuladas a pensar no amor e no relacionamento como centro da vida, enquanto seus desejos sexuais são reprimidos ou controlados. Já os homens são socializados de forma oposta: incentivados ao prazer e à liberdade sexual, enquanto o amor muitas vezes é tratado como algo secundário ou até como “coisa de mulher”.

Com essa cultura difundida desde a infância — presente em filmes, séries, religião e até em algumas tradições filosóficas — torna-se difícil abandonar rapidamente essa ideia de amor idealizado.

Assim, percebe-se que o amor não é apenas um sentimento individual, mas também uma dimensão da vida profundamente atravessada por estruturas sociais, como o machismo. Essas estruturas podem gerar frustrações, dependência emocional, expectativas irreais e a idealização de um parceiro que dificilmente existirá.

A ideia de alma gêmea promete um amor perfeito.
Mas talvez o amor real seja justamente o contrário: duas pessoas imperfeitas escolhendo ficar.


-beijos,

isa

Respostas

  1. Avatar de Jedison Iacks

    incrível adorei

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  2. Avatar de Jedison Iacks

    parabéns

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    1. Avatar de isadora iacks

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