
Entre pureza e autonomia
Hoje, na minha consulta com a psicóloga, falei sobre o meu blog. Mas, durante quase quarenta minutos, acabamos conversando sobre um tema que ainda é um tabu para mim: a virgindade.
Desde pequena, fui criada na Igreja Católica. Cresci ouvindo discursos de que a mulher deveria se casar virgem, que a pureza feminina era algo essencial. Com o tempo, percebi que esses ensinamentos deixaram marcas em mim: medo do sexo, insegurança em relação ao meu próprio corpo e dificuldade em enxergar minha autonomia.
A pureza feminina sempre foi muito valorizada em discursos religiosos. Mas, no mundo de hoje, as mulheres têm muito mais autonomia do que antes. Podem escolher seus caminhos, seus relacionamentos e a forma como querem viver.
Então por que esse discurso ainda existe?
Ao longo da conversa, comecei a perceber que, historicamente, o controle sobre o corpo das mulheres sempre foi uma forma de controle social. A virgindade foi transformada em símbolo de valor, de honra, de pureza.
E talvez o problema não seja a escolha de esperar — porque esperar pode ser uma escolha legítima.
O problema é quando isso não é escolha, mas imposição.
Quando uma mulher cresce acreditando que deve se guardar porque alguém mandou, porque está na Bíblia ou porque é uma tradição familiar, ela pode acabar sem informações importantes — como a diferença entre consentimento e obrigação, entre desejo e culpa.
Quando eu era mais nova, eu acreditava que uma mulher que tinha autonomia sobre a própria vida sexual era “fácil” ou “vulgar”. Hoje eu percebo o quanto esse pensamento estava carregado de julgamento.
Ter autonomia não é falta de valor.
É liberdade.
Isso me fez lembrar de personagens como Samantha, da série Sex and the City, que vive sua sexualidade com segurança e independência — e, por isso, é frequentemente julgada, até mesmo por outras mulheres.

A história de Britney Spears também mostra essa contradição. Durante anos, sua imagem foi construída em torno da pureza e da inocência, enquanto ao mesmo tempo ela era sexualizada pela mídia. Quando tentou assumir o controle da própria vida e da própria imagem, foi julgada, criticada e até privada de sua autonomia.
Isso mostra o quanto a sociedade ainda tenta controlar o corpo e as escolhas das mulheres.

Depois da consulta, comecei a refletir sobre quantas vezes esse tabu influenciou minha vida:
as conversas que eu evitava, o desconforto em falar sobre sexualidade, os comentários sobre “pureza” que ouvi dentro da minha própria casa.
E, no fim, percebi algo importante:
Nada disso faz sentido se eu quero viver de verdade.
Se eu quero ter autonomia sobre o meu corpo.
Se eu quero tomar decisões baseadas no que eu sinto — e não no medo ou na culpa.
Talvez crescer também seja isso: deixar de viver a partir das expectativas dos outros e começar, finalmente, a construir os próprios pensamentos.

-beijos
isa
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